Portugal Fashion, a moda em Portugal e as diferentes ansiedades

liliana marques; make-up; blogger; portugal fashion ss18

Ainda ninguém considera que a moda em Portugal tem peso para a indústria, e não se deve a falta de talento. Os problemas são outros e não é fácil falar sobre eles, muito menos resolvê-los.
Muitos de vocês não sabem, mas eu comecei por trabalhar em redacções de revistas de moda, e só recentemente é que passei a tempo inteiro para aqui. Esta não foi a minha primeira vez no Portugal Fashion, e visto de fora, não há dúvidas, passei de cavalo para burro, mas, em nada, isso me fez sentir inferior. Este é um texto que cruza muitas linhas que cosem a moda em Portugal, sem espetar qualquer agulha na ferida, espero eu.


close-ups; black and white; models; girls; just iconic;


No ano passado fui a alguns desfiles, ainda com o título Vogue, voo marcado, motorista, hotel de cinco estrelas, lugar marcado e o meu nome impresso numa folha A4 colocada estrategicamente na fila da frente, e eu completamente deliciada com tudo aquilo. 
Agora tive que pedir a minha acreditação de "blogger", viajar de comboio - intercidades, segunda classe - ficar num hostel, procurar o melhor lugar para filmar e fotografar, nem sempre sentada e nem sempre no sítio onde me era permitido estar. Sim tive essa lata, queria dar-vos o melhor possível e isso exigia mais do que o aquilo me era autorizado. 
Repararam nas diferenças? É fácil perceberem que num espaço de apenas um ano tudo mudou, e à primeira vista pode parecer que mudou para pior, mas não. Na moda, tal como na vida, há uma coisa que é sempre insubstituível, a liberdade. 
Pude fazer o queria, quebrar as regras que queria, podia estar na primeira, na segunda ou na terceira fila, podia falar com quem queria podia ser tudo o que sempre fui mas nem sempre pude ser. E essa independência faz com que valha muito a pena. De cavalo para burro? Para muitas pessoas seria, mas para mim não foi, nem por um bocadinho. A experiência que se vive num Portugal Fashion é sempre gratificante, mas há quem vá por razões diferentes da minha, nesse caso a fila da frente e hotel de cinco estrelas fazem muita diferença. Mas a moda não é isso, lamento.


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Lembro-me de ter lido recentemente uma entrevista na Vestoj -um site que toda a gente do mundo da moda devia conhecer- com título "Will I Get a Ticket?" e a entrevistada é a grande Lucinda Chambers, editora de moda da Vogue Britânica durante 25 anos e recentemente afastada da publicação. Entre muitas coisas, Lucinda, fala sobre as ansiedades na moda e sobre o falhanço, diz que "a moda está cheia de pessoas ansiosas. Ninguém quer ser o único a ficar de fora." o que é uma grande verdade e que em Portugal se torna gritante. Há de tudo e há muita gente que não sabe apreciar moda, quanto mais um desfile, é como Lucinda diz: "Os desfiles de moda são tudo sobre expectativa e ansiedade. Estamos todos em exibição. É um teatro." É uma entrevista que vale a pena ler e fala sobre temas sobre os quais vale a pena reflectir. 

Ainda sobre a entrevista, Lucinda aponta que a grande maioria das pessoas que sai da Vogue passa a sentir-se menos do que quando faziam parte da publicação. Vejo o porquê, as ansiedades e as expectativas, vi isso de perto, vivi isso, mas nunca me senti menos, mas também tenho a humildade para vos dizer que ainda não me senti mais do que a Vogue.
Aproveitem e vão comprar a Vogue de Novembro, mais uma edição especial para celebrar o 15º aniversário. 
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Para vos mostrar o mundo da moda em Portugal, as entrelinhas, e os bastidores, as pessoas e as emoções, fiz um vídeo (gravado e editado por mim) tudo comprimido em pouco mais do que sete minutos e que retrata tanto o cansaço como o amor que está presente em tudo o que faço, especialmente nisto.




Um especial obrigada ao João Pedro Padinha por respirar moda e por me levar por maus caminhos e um obrigada à Joana Moreira, pela incrível genialidade que veste, todos os dias. 
Um obrigada à Mónica Neto, também. 

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