#7 - Papel de parede


São três da manhã e eu estou sentada na cama, num pijama largo e velho, com o cabelo oleoso, a tentar cumprir o meu ritual de escrita. A luz fraca do candeeiro de cabeceira está mais forte que as minhas ideias e eu não sei o que fazer. Há folhas completamente escritas, rasgadas dos cadernos, espalhadas pela cama. Os esboços, os rabiscos, as tentativas de trazer vida às palavras que me ocupavam a mente e não me deixavam dormir. Mas ultimamente, a mente não tem tido palavras suficientes para escrever um post-it sequer.
Estou parada, o papel de parede do quarto tem mais histórias para contar do que eu. Mas este livro não se vai escrever sozinho e eu nem um paragrafo tenho. Ando há três meses com o documento do word aberto mas completamente em branco. Afasto o computador e pego no livro da Meg Wolitzer, ultimamente tem sido muito mais fácil ler do que escrever. Vou na página 227 quando o telemóvel vibra.
É o Pedro outra vez, é sempre ele. Quebra-me o raciocínio, interrompe-me demasiadas vezes. Neste momento interrompe-me a noite, mas parece que me interrompe a vida. Acho que preferia o silêncio gélido dos meses que se seguiram ao fim da nossa relação. 
A conversa não me interessa, caio na almofada, afasto os papéis, o computador vai para o chão, dobro o canto da página 227 do livro e pouso-o na mesa ao lado da cama, dou um golo no meu chá, já frio, e adormeço. Nem o Pedro teve resposta, nem o livro foi escrito. 

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