#3 - Lista de Compras

Texto: Liliana Marques | Fotos: D.R.

Morri de medo de ter asas, mesmo sabendo que tudo o que queria era voar.
Estava no meu quarto, com cortinados em padrão vichy cor-de-rosa e uma alcatifa bege, uma escrivaninha e um móvel sueco onde guardava a roupa, em cima os perfumes e as Barbies. Na magnificência da minha infância, depois de acabar de ler um livro, mais um, soube que ia sempre querer ter asas para voar. Calcei os meu patins e fui para a rua, o vento na cara fazia-me sentir astronauta, o que é absurdamente ridículo porque os astronautas usam capacetes, mas a infância tem destas coisas. Ainda ouvia músicas de cassete, ainda comia cereais às cores, ainda despia as Barbies sem saber que um dia nunca ia querer vestir-me como elas. As aulas de dança clássica ainda me faziam sentir senhora de tudo, o ténis deixava-me exausta, pronta para a cama, a natação idem. Naquela época, do quarto em tons de rosa, ainda não ligava aos rapazes, sabia com toda a consciência possível de ter quando apenas se tem 8 anos idade, que não ia querer um rapaz a chatear-me a cabeça, queria viver sozinha, usar saltos altos, ler livros sem bonecos, conduzir carros e aviões com a mesma audácia com que conduzia os meus patins brancos em pele com os cordões amarelos e rosas. Queria ser mulher. Sem repetir outra qualquer mulher. Saberia que ninguém ia compreender com facilidade os caracteres especiais da minha existência, eu gostava de me pôr ao piano a fingir que sabia tocar, gostava de falar com os rapazes e aprender sobre as coisas deles, as histórias deles eram tão diferentes das histórias das meninas que se sentavam no primeiro banco do autocarro da escola.
Guardei todas as experiências, histórias, lendas e os desenhos fantasiosos do meu mundo ideal, os esboços a carvão daquilo que eu sabia que queria para a minha vida, como se a infância fosse uma ida ao IKEA para comprar tudo para uma casa nova, podia escolher exactamente o que queria para dali a 10 ou 20 anos. Lista de compras: 

Hoje deram-me as asas e eu não quis voar. Hoje deram-me as asas eu só quis voltar para as cortinas vichy cor-de-rosa, não quis ir à lua, não quis sair de casa, não quis despir o pijama, não quis acordar sequer. 
O medo de voar era um pesadelo pior do que ter que usar bikini, era como se eu tivesse que ir à lua mas tivesse-me esquecido do capacete no hall de entrada porque vesti o casaco de glitter à pressa e esqueci-me do essencial, iria morrer sem oxigénio ia ser sufocante ouvir o colapsar dos meus pulmões enquanto via a terra a tornar-se uma bolinha azul e verde cada vez mais pequena.
Aquelas asas que me deram só duravam um dia. Um dia depois e eu sai de casa com calma, vesti o meu casaco de glitter e peguei no capacete para que nunca me faltasse o ar, saí de casa confiante para conquistar o "infinito e mais além". As asas não quiseram voar. Eu não quis acreditar. 
Afinal onde estava a menina de 8 anos que queria chegar à lua? No IKEA, a comprar um lençóis brancos para fazer as suas próprias asas.

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