#6 - Helena de Tróia e D. Duarte numa noite no Lux



Mais uma tentativa falhada de aguentar uma noite inteira em saltos altos. Já passava das seis da manhã e o sol já se enrolava timidamente com o Tejo, um romance lindo e eu sozinha e descalça à porta do Lux. O Elias tinha me desafiado a ir dançar com ele. Eis o que aconteceu até ao amanhecer:
-'Bora dançar - Era o que dizia a mensagem do Elias, recebida as 23h17.
-Bora!
-Põe uns saltos altos, miúda, vamos para o Lux, tenho entradas grátis. É para dar tudo hoje - Elias às 13h19.
-Ok!
-Vou chamar um Uber daqui a 10min 'tou à tua porta! - Elias, a achar que eu me despachava em 10 minutos. Consegui o feito em 12 e desci as escadas a correr com as botas de salto alto na mão.
-Helena, será possível? Vieste descalça? - Disse o Elias a abordar-me com uma cara que julgava quase tudo em mim.
Quando chegámos ao Lux eu estava calçada e preparada para tudo. A fila era grande mas entrámos pela porta do lado, subi as escadas até ao bar, pedi um Vodka com Ginger Ale.
A luz azul da pista penetrava o meu copo sem pedir licença, estava com umas calças de ganga com um corte surpreendentemente moderno, muito embora tivessem pertencido à minha mãe há uns bons anos atrás, e um top branco que ia ganhando cor com as luzes que piscavam no tecto. Quando chegámos o espaço ainda estava meio vazio, fizemos umas cinco stories para o Instagram, fomos ao rooftop. Ainda tinha o casaco de cabedal vermelho vestido, estava vento, o cabelo soltou-se. Às duas da manhã já não havia espaço para nada e a personalidade do Elias ocupa muito espaço, muito embora eu o adore. Pus o casaco à cintura, não levei mala, porque nunca levo. Perdi-me do Elias quando fui à casa de banho, perto das 3h45. Voltei para a pista e dancei uma música que ia jurar ser da NAO mas já não me lembro com precisão, já estava cheia de dores nos pés, descalcei as botas, já devia ir no quarto Vodka.
- Precisas de ajuda? - Disse uma voz demasiado quente e húmida que se aproximou do meu pescoço. Já tinha a mão em cima do meu ombro, sem que eu ainda tivesse tido tempo para lhe ver a cara.
-Não - Respondi enquanto levantava a cabeça para responder. Perdi a fala quando os nossos olhos se cruzaram.
-Porque é que estás a descalçar-te?
-Porque já não aguento a dor de andar de saltos altos! - Respondi-lhe a fechar o meu rosto com muita arrogância, provavelmente ele não percebeu que eu quase que escorreguei na minha própria baba quando o vi e, provavelmente, depois da minha resposta deve ter achado que eu não era uma rapariga simpática.
Ele pegou nas minhas botas e entregou-as a um rapaz alto e demasiado musculado que trabalhava no bar. -Carlos, guarda aí as botas da princesa.
Pegou-me ao colo quase pelos joelhos, deixando-me completamente pendurada em cima do ombro direito dele e levou-me para o meio da pista. Quando me pousou no chão segurou o meu pescoço com as duas mãos e disse-me: - Aposto que vieste para dançar, tenta só que ninguém te pise.
Como ele era largo de ombros ganhei alguma protecção, ele não deixava que as pessoas se aproximassem muito.
Estava a dançar uma versão suavemente remixada do "Shoot You Down" dos Stone Roses quando dei conta que os meus pés passaram a estar muito mais quietos que a minha língua.
Não sei como é que ele fez aquele movimento de mestre. Quando afastou a minha cara dele, reparei que ficava ainda mais giro depois de ser beijado por mim. Os olhos azuis e o cabelo preto ganharam um brilho diferente. Continuámos a dançar, ele riu-se e beijou-me as costa quando percebeu que eu não usava sutiã. Quando as mãos dele desceram até a minha cintura lembrei-me que era lá que tinha o telemóvel e que eu não sabia duas coisas importantes: onde estava o Elias e que horas eram.
O Elias mandou-me uma mensagem às 4h56 a dizer: "Amor, fui para casa e levei comigo o polaco que meteu conversa comigo quando chegámos. Espero foder. Não venhas dormir a minha casa a menos que corras perigo de vida!"
Eram 5h48 e eu só lhe respondi: "Boa sorte, usa preservativo. Até amanhã!"
- Não me digas que te vais embora antes disto fechar? - Perguntou-me ele antes de me morder a orelha.
- Não, não necessariamente e por falar nisso, já não é nada cedo, vão mandar-nos embora não tarda nada.
Passou Drake a fechar a pista, ou pelo menos foi o que me pareceu. Beijei-o demais, os meus ouvidos já só ouviam por entre os dedos dele, que me segurava pela cabeça, como se eu fosse uma enorme melancia que ele queria muito comer.
Ele era claramente demasiado giro para ser verdade, comecei a achar que a piada dele era positivamente proporcional ao número de Vodkas que bebi, se bebesse mais um ou dois ia passar a querer ter filhos dele, de tão giro que era.
-Princesa, vou buscar as tuas botas!
-Ok, eu vou contigo.
Sentou-me no balcão para que eu as pudesse calçar, mas eu rejeitei essa tortura e encaixei-o no meio das minhas pernas para o beijar. A sala já estava quase vazia e claramente que lhes dava jeito que nos fôssemos embora, já só havia música de fundo. Fomos até à porta, encostou-me a um carro, um velho Toyota azul escuro que combinava com o meu casaco vermelho.
-Entra, eu levo-te a casa, à tua ou à minha, como preferires. - Disse ele enquanto punha a chave na porta para destrancar.
-Não, nem sei o teu nome.
-Duarte.
-Helena.
-Helena de Tróia?
-Não, Helena descalça, serve?
-Entra, eu levo-te a casa. - Disse ele já com a porta do lado do condutor aberta.
-Ouve, gostei imenso da noite, mas eu moro perto e não quero boleia. - Respondi-lhe depois de me ter despedido com um beijo.
Ele entrou no carro e arrancou devagar, depois gritou: "Helena, fica com isto" e aproximou-se de mim para me dar um papel.
"Estação do Rossio às 17h, amanhã!" era o que dizia o papel que do outro lado era um folheto de compra de automóveis usados.

Fui descalça para casa, a ver o tejo namorar com o sol. Comprei um pão-de-deus no caminho, quando mergulhei na minha cama percebi que embora o efeito da Vodka tivesse passado, o efeito dele não.


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