#5 - O primeiro beijo do Miguel


Havia pedido à minha avó para me fazer uma trança e usava um vestido de ganga e uns ténis vermelhos, a minha mochila era amarela e destacava-se numa multidão de aborrecidas mochilas Monte Campo. Não fui nada nervosa nem acanhada, destaquei-me pela determinação dos meus passos em direcção à sala de aula. Não aprendi grande coisa nos primeiros tempos, o bê-á-bá eu já o sabia de cor e nem nas matemáticas precisava de prestar atenção. Dediquei-me, por isso, a observar os rapazes, uns não mereciam mais do que cinquenta segundos, não tinham nada de interessante, tiravam macacos do nariz enquanto as suas caras demonstravam que estavam aborrecidos e completamente perdidos nas somas e subtracções. Outros vinham suados do recreio, as bochechas rosadas prendiam-me a atenção, escreviam no caderno com muita força, partiam o bico do lápis com frequência, estavam empenhados e tranquilos naquele início de vida. Comigo eram todos iguais, cumprimentavam-me todas as manhãs no corredor da escola, mas nunca me deram muitas confianças, creio que a minha mochila amarela intimidava-os.
-Bom dia, Helena! - dizia o David ainda a beber o leite com chocolate e sem tirar a boca da palhinha, normalmente chegava cedo e parecia ser viciado em bebidas em pacote. O David era acanhado e pouco divertido, era raro jogar connosco no intervalo e comia demais. Ouvi dizer que se formou em finanças, não lhe daria melhor profissão, deve continuar a beber bebidas de pacote e vai fazer rugas mais cedo que eu. 
-Bom dia, David. - Respondia-lhe, com as mãos presas nas alças da minha mochila amarela. 
Depois a turma ia juntando-se à porta da sala cinco à espera da professora ou à espera de receber a maravilhosa noticia de que não havia aulas, mas nunca tivemos essa sorte. 

O meu primeiro dia foi melhor que o segundo, mas o último dia do primeiro ano foi o melhor de todos. Estava sentada a ver os meninos jogarem à bola, estava com o mesmo vestido de ganga e os mesmos ténis vermelhos por isso optei por não pôr em risco a vestimenta e não estava a jogar com eles. No fim do jogo as bochechas rosadas e húmidas do Miguel aproximaram-se de mim para me dizer que eu estava linda e que o verão iria ser uma seca sem mim. 
Beijei-o tão rapidamente que nunca soube ao que sabiam os seus lábios, talvez estivessem salgados do suor. 

A entrada no meu diário relativa ao último dia de aulas do primeiro ano, "17 de Junho de 1994", descrevia esta história com muito mais amor e muito menos correcção linguística.

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