A soma de 25 anos

just iconic; just lily;


Os 25 surgiram mesmo agora, chegaram de mansinho para me dizer que já vivi muito, que já devia estar a viver outra vida, já devia ter saído do meu pequeno quarto, no encafuado apartamento no segundo andar, deste velho prédio que recebe as vidas da minha família há meio século.
Mas ainda cá estou, sentada à chinês em cima da cama que leva com os meus sonhos há demasiados anos, as asas para voar estão encostadas à cadeira. Só as uso para escrever, e normalmente escrevo sentada à secretária. A que me viu estudar para me licenciar. A almofada que já esteve ensopada nas lágrimas da minha frustração de andar em voos curtos ainda é a mesma, está a servir-me de encosto enquanto escrevo, enquanto leio, enquanto sonho. Os livros foram povoando o meu quarto. Há cada vez mais livros, tal como há cada vez mais vontade de escrever. Mas os astros nem sempre estão alinhados. Quando mercúrio está retrogrado nunca consigo escrever. Astrologias e matemáticas fodem-me o esquema de querer escrever todos os dias, para sempre.

Os 25 são uma soma complexa de anos de vida, pelo caminho somei muito mais que 25 feridas. Houve uma no joelho que nunca vou esquecer: era verão e estava de férias com os meus avós, na aldeia em Viseu. Tentei subir uma enorme pedra, maior do que eu, tinha musgo e cheirava a terra quente, sabia que nunca iria descansar enquanto não a conseguisse subir; Queria superar-me todos os dias, sempre quis, queria chegar aquele topo, como quis chegar a tantos outros; mas pus mal o pé, o musgo atraiçoou-me, escorreguei e esfolei o joelho, segundos depois e a minha tentativa foi uma frustração com cheiro a sangue, uma lágrima incontrolável apressou o meu avô a vir ter comigo, limpou-me o joelho e as lágrimas. O joelho ficou bom pouco tempo depois. A pedra ainda lá está, chega-me pouco acima da cintura e o sangue ficou lá marcado apesar do tempo e das chuvas, e nem o musgo o quis tapar. Eis a recordação do fracasso. Eis o momento em que aprendi que aquilo que me foi atrevido subir aos 5 está neste momento mais pequeno que eu. Eis a preciosa lição de vida em que aprendi que o tempo é precioso, não só porque cura fridas, como a do joelho, mas porque nos ensina a esperar. Ora porque precisamos de crescer, ora porque, eventualmente, há obstáculos que deixam de ser grandes demais.

Pelo caminho também somei conquistas, vitórias, feitos memoráveis que me fazem sentir heroína sem asas, super-mulher sem capa. Por vezes senti-me Vasco da Gama a dobrar o Cabo das Tormentas. Tanta ousadia. Contudo, sem ela não teria conquistado metade. Não sei qual a conquista que mais me marcou. Senti-me enorme quando a minha mãe me deixou usar a máquina de escrever dela, tinha uns 6 ou 7 e já compunha frases, com vírgulas e tudo, e já sonhava em escrever muito, sempre com força e determinação. Sei que adorei conquistar a minha independência, muito embora nunca tenha desejado conquistar o primeiro soutien, nem o primeiro bikini, ser mulher é muito mais do que isso e eu adorei conquistar a mulher que habita cá dentro. Sempre quis conquistar melhores notas, depois conquistei a faculdade, o sexo, o carro, o álcool, o erasmus. Depois o caminho marítimo para os meus sonhos apressou-se a ficar tumultuoso mas, como boa descobridora – sim porque isto está-nos no sangue – encontrei o meu caminho, voltei ao teclado, como quem volta à casa de partida no Jogo da Glória, mas o dado somou pontos e subi rapidamente para a casa Vogue. Por lá amadureci tudo o que ainda estava verde, verde como o musgo que me fez cair. Foram glórias.

E ainda digo que sou a pessoa mais feliz do mundo, muito embora chore muito na minha almofada, sei que nunca ninguém teve a ousadia de me roubar a felicidade. Conquistada com uma imparável soma de alegrias. O meu pequeno irmão, hoje maior do que eu, é responsável por muitas delas; ele nem sabe nem sonha que é mesmo maior do que eu. Tive tantas alegrias na vida quantas as gotas que me baptizaram a vida no Paredes de Coura, como o Fábio diria: “It’s very spiritual”. A alegria pode ser encontrada num cachorro quente, que o diga a Mónica e a nossa fome festivaleira. Com ela encontrei aquelas alegrias que são indivisíveis, são parte dela e parte minhas, como o riso descontrolado quando fomos apanhadas a dançar na cozinha ou quando nos sentámos ao pôr do sol em Barcelona. Há alegrias que nunca existiriam sem certas dores, como a alegria de ver a minha avó depois de uma operação. Há outras das quais serei sempre grata como alegria de poder aprender o ponto de embraiagem com o meu avô. A eterna alegria de aprender a ser mulher com a maior de todas, a mãe.


Somei pessoas para somar alegrias, somei alegrias para somar forças, somei forças para somar conquistas. Somo anos porque o calendário obriga. Entretanto somo vontades e sonhos. Os 25 vieram para me ensinar que não se soma nada sem a pior das triologias: Sangue, suor e lágrimas. Tudo bem-vindo. 

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