#1 - O gajo do restaurante da rua


Não é lindo de morrer, o espaço chega a ter mais piada, mais sensualidade que ele. Mas ele serve-me o copo do meu vinho preferido, sempre que eu preciso de um copo de vinho para curar seja o que for. Há que achar piada a quem nos serve vinho, certo?
Há algo na maneira como ele me recebe que me faz achar que ele preferia levar-me a jantar do que servir-me o jantar. Que querido. Acho que nunca o levaria para a cama, mas acho que ele me levava a mim.Uma noite destas, deixo-lhe o meu número, mas acho que depois deixava de lá ir. Não ia gostar de perceber que as minhas previsões atmosféricas relativas ao clima que há entre nós estavam erradas. E se tivessem certas, eu não estou certa que ele me daria tesão. Prefiro que ele me dê o meu vinho preferido e um sorriso quente sempre que entro por aquela porta pesada do restante da rua. Será que ele faz isto a outras solitárias que aparecem quase à hora do fecho só para beber um copo ou, em noites de escrita, um café?
Às vezes sonho em tirar-lhe o avental e a máscara de empregado, ficaria a saber os segredos dele, os segredos do vinho, da noite e do restaurante, cheio de pessoas sombrias e possivelmente interessantes, daquelas que levam um livro do Eça para jantar, ou um jornal com poucas imagens. E eu vou com o meu smartphone sentar-me numa mesa para dois, sendo apenas uma, e um copo de vinho, às vezes dois, às vezes três, confesso. Depois volto para casa, para o meu computador e para o meu altar de escrita, dividido em livros já escritos por outros e livros ainda por escrever, cadernos vazios e canetas cheias de tinta. E a minha cabeça cheia de ideias, às vezes cheia de vinho, às vezes cheias de sorrisos do empregado.
É sempre um bom bocado, mais seria pecado.

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